Enquanto a atenção nacional focava no confronto entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, a sucessão presidencial escancarou um cenário crítico para o carlismo: o tradicional polo de poder baiano, que há cinco décadas ocupa o centro da política estadual, vê sua influência encolher e agora depende unicamente do oxigênio político de Salvador para evitar a asfixia total.
O avanço petista no interior baiano
A crise atual não nasceu apenas da disputa eleitoral recente, mas começou a tomar forma em 2022, quando o ex-prefeito ACM Neto foi derrotado por Jerônimo Rodrigues. Na época, a derrota para um adversário que o próprio grupo tratava como um tipo de “poste de outro poste” gerou forte impacto na cúpula oposicionista. Quatro anos depois, o cenário se mostrou ainda mais desfavorável. Jerônimo venceu no primeiro turno, conquistando 376 dos 417 municípios baianos, enquanto ACM Neto reduziu sua presença para apenas 41 cidades, perdendo 24 redutos em relação ao pleito anterior.
Esse resultado consolida uma sequência histórica desfavorável à oposição. Já são seis eleições consecutivas para o governo estadual vencidas pelo mesmo grupo político, desde a vitória inaugural de Jaques Wagner em 2006, passando pelos mandatos de Rui Costa e pelos dois de Jerônimo Rodrigues.
Do auge nacional à fragmentação
O contraste com o passado áureo construído por Antônio Carlos Magalhães é gritante. Durante décadas, o patriarca comandou uma estrutura que unia governo estadual, força no Congresso e forte influência nacional. A primeira grande fratura ocorreu justamente em 2006, quando Wagner derrotou Paulo Souto e encerrou 16 anos de supremacia do PFL. Nos anos seguintes, a criação de novas legendas, como o PSD em 2011, acelerou a dispersão de aliados históricos e fragmentou o bloco carlista.
Salvador como última fortaleza
Com o interior dominado pelo grupo governista, a capital baiana permaneceu como o principal reduto de resistência. ACM Neto venceu Jerônimo em Salvador na disputa mais recente, registrando 769.752 votos contra 630.677 do adversário. Contudo, a margem de vantagem encolheu consideravelmente em comparação com os pleitos anteriores, evidenciando o desgaste na cidade onde Neto governou por dois mandatos e onde seu aliado Bruno Reis venceu em 2024.
Desse modo, a sucessão municipal de 2028 ganha contornos decisivos. A disputa pela prefeitura funcionará como um teste de sobrevivência para o grupo, que precisa manter seu último grande centro de poder para tentar reorganizar a oposição na Bahia.
O peso do alinhamento nacional
Outro fator que pesou contra o carlismo foi a guinada estratégica na política nacional. Após tentar manter distância da polarização presidencial em 2022, ACM Neto declarou apoio a Flávio Bolsonaro em uma tentativa de cartada final. A mudança de postura gerou forte desgaste entre eleitores que adotavam o voto cruzado e rejeitavam o bolsonarismo, fazendo com que muitos se sentissem enganados.
Sem alcançar o sucesso na disputa presidencial e acumulando reveses no cenário estadual, o grupo político saiu duplamente derrotado, comprometendo sua transição para além da direita ideológica e elevando a tensão para a defesa de Salvador em 2028.
Fonte: Metro1





