O resultado apertado do primeiro turno presidencial, com uma diferença de 47% a 45%, colocou o Brasil diante de uma encruzilhada que ultrapassa a disputa partidária cotidiana. O embate marcado para 25 de outubro carrega profundas consequências para o rumo das contas públicas e, principalmente, para a autonomia geopolítica brasileira em um cenário global conflagrado, avalia o economista Paulo Nogueira Batista Jr.
Cenário internacional e a cobiça por recursos estratégicos
A maior vulnerabilidade do país no momento reside no plano externo. Com o retorno de Donald Trump ao poder em Washington, a política externa norte-americana intensificou sua postura impositiva sobre as Américas, orientada por diretrizes de segurança que tratam o hemisfério ocidental — da Patagônia à Groenlândia — como área de hegemonia exclusiva. O próprio secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, chegou a empregar o termo “quintal” para definir a região.
Nesse xadrez global, o território brasileiro torna-se um alvo prioritário. O país abriga a segunda maior reserva de terras raras do planeta, insumos cruciais para a tecnologia e a transição energética que motivaram recentes disputas táticas entre norte-americanos e chineses. Empreendimentos como a exploração em Serra Verde, em Goiás, exemplificam o avanço de interesses estrangeiros sobre esses minérios críticos, movimento facilitado por lideranças regionais alinhadas à oposição.
Isolamento diplomático e alinhamentos externos
O contexto regional agrava a pressão externa sobre o Brasil. Na América Latina, governos progressistas e autônomos tornaram-se minoria diante da expansão do modelo ultraliberal impulsionado na Argentina e de episódios severos de desestabilização institucional, a exemplo da Venezuela. Restam poucos contrapontos de relevância continental, como a gestão de Claudia Sheinbaum no México.
Soma-se a isso a postura diplomática exibida pela família Bolsonaro, marcada pelo endosso automático a lideranças como Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Para Paulo Nogueira Batista Jr., autor de obras sobre a soberania brasileira, esse perfil submisso ameaça transformar o país em um satélite dos interesses de potências estrangeiras, fragilizando o papel de liderança global historicamente construído pelo Estado brasileiro.
O contraste na condução econômica e o ajuste fiscal
No front interno, a estabilidade das contas públicas e o padrão de vida da população dependem diretamente de quem assumirá a Presidência em 2027. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro tende a repetir a fórmula aplicada no governo de seu pai, com a entrega da condução fazendária a representantes do setor financeiro tradicional — a chamada “turma da bufunfa”.
Especialistas alertam que a receita ortodoxa para o reequilíbrio fiscal em um governo de direita envolveria medidas de impacto social severo: o fim do reajuste do salário mínimo acima da inflação, a desvinculação dos benefícios da Previdência Social e a derrubada dos pisos constitucionais destinados à saúde e à educação pública. Essas ações recairiam diretamente sobre a renda das famílias mais vulneráveis, preservando privilégios fiscais das camadas mais ricas.
O balanço da gestão atual
Em contrapartida, a administração de Luiz Inácio Lula da Silva apresenta um histórico de moderação e previsibilidade econômica, mantendo o crescimento do Produto Interno Bruto próximo a 3% nos últimos anos e o desemprego em baixas históricas. A inflação, estimada em cerca de 5% no ano corrente, reflete pressões externas decorrentes de conflitos no Oriente Médio, como o ataque ao Irã, mas segue em patamar administrável sob a nova sistemática de meta contínua conduzida por Gabriel Galípolo no Banco Central.
Apesar da resiliência macroeconômica, persistem entraves estruturais. As elevadas taxas de juros reais praticadas pela autoridade monetária continuam a encarecer o serviço da dívida pública, gerando um déficit primário efetivo em torno de 0,6% do PIB. A superação desses gargalos, segundo analistas, exige experiência administrativa e autoridade política para barrar retrocessos e garantir a segurança nacional acima da mera eficiência de mercado.
Fonte: Metro1