O Fórum Ruy Barbosa, em Salvador, sediou nesta terça-feira (13) a sessão do Tribunal do Júri de Josevan Dionísio dos Santos, conhecido pelas alcunhas de “BZ” ou “Buzuim”. Terceiro denunciado a sentar no banco dos réus pelo assassinato de Maria Bernadete Pacífico Moreira, ele sustentou não ter qualquer ligação com o crime executado em agosto de 2023, no município de Simões Filho.
Depoimento e contestação das provas fotográficas
Durante a inquirição, Josevan argumentou que só tomou conhecimento da execução da ialorixá por meio de reportagens veiculadas na televisão e na internet. O acusado declarou que passou a ser alvo das apurações após a circulação de imagens nas quais segurava armamentos.
Ao ser confrontado pela assistência de acusação sobre um registro no Instagram onde exibia uma arma com detalhes em vermelho e preto — com características parecidas às do revólver usado no homicídio —, o réu admitiu que a mão na foto era sua, mas contestou a posse do objeto.
“A arma não era minha. Aquela foto que estava no celular era antiga, que eu peguei e postei. Mas não era minha aquela arma não”, declarou.
O acusado relatou ainda o impacto ao descobrir sua inclusão nos canais de procurados pela polícia. “E aí, de repente, me botaram na carta do baralho [do crime]. E aí ficou repercutindo a minha foto, minha família toda desesperada. Eu ainda pensei até em me entregar”, disse.
Em relação a Arielson da Conceição dos Santos, já sentenciado pelo assassinato, Josevan descartou laços de proximidade e limitou a interação a uma negociação pontual de aparelho telefônico: “Eu não conhecia ele não, eu não tinha vínculo nenhum com ele. Eu conheci ele no dia que eu peguei o celular na mão dele e depois não vi mais”, afirmou.
Ao concluir sua manifestação em plenário, o réu insistiu em sua inocência. “Não tenho nada contra ela. Não tem porquê eu ter tirado a vida dela. Uma senhora de idade”, declarou.
Polícia aponta retaliação de facção criminosa
O depoimento do delegado Felipe Madureira, da Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), trouxe a perspectiva das investigações oficiais. Conforme a autoridade policial, Josevan integrava a facção criminosa Bonde do Maluco (BDM), exercendo o papel de executor de homicídios da quadrilha, além de já possuir antecedentes.
A apuração da SSP-BA concluiu que o ataque contra Mãe Bernadete foi ordenado pela cúpula do tráfico em represália a denúncias formais feitas pela própria líder quilombola. Ela vinha se posicionando contra a realização de festas com paredões de som e a venda de entorpecentes em uma barraca instalada nas imediações da sede da Associação Quilombola Pitanga dos Palmares.
Acusação sustenta prova robusta e pede pena máxima
O advogado Hédio Silva, representante legal da família da vítima, afirmou esperar que o conselho de sentença aplique o teto legal de reclusão ao réu.
“É um conjunto probatório irrefutável, de maneira que nossa expectativa para hoje é a pena máxima, de 40 anos”, declarou.
A tese acusatória se apoia em laudos técnicos, quebras de sigilo telemático de celulares e testemunhos. O assistente de acusação frisou que o próprio comparsa Arielson confirmou que coube a Josevan deflagrar o tiro inicial contra a líder quilombola, que foi alvejada por 25 disparos de arma de fogo.
O andamento dos processos contra os demais acusados
Ao todo, o Ministério Público da Bahia denunciou cinco homens pelo atentado. Em julgamento anterior, ocorrido em abril, o Tribunal do Júri já havia condenado Arielson da Conceição dos Santos a 40 anos, cinco meses e 22 dias de reclusão.
Na mesma ocasião, Marílio dos Santos recebeu uma pena fixada em 29 anos e nove meses de prisão, mas morreu apenas dois dias após a leitura da sentença.
O cronograma do Judiciário prevê o júri de Sérgio Ferreira de Jesus para 21 de outubro, também na comarca de Salvador. O processo relativo a Ydney Carlos Santos de Jesus segue em tramitação e aguarda o trânsito em julgado para a designação da data de julgamento.
Mãe Bernadete tinha 72 anos quando foi assassinada dentro do território quilombola em Simões Filho, encerrando uma trajetória marcada pelo ativismo comunitário e pelo enfrentamento ao avanço do crime organizado na região metropolitana.
Fonte: Metro1